quinta-feira, 25 de março de 2010

Akira Kurosawa



Nesta última terça-feira, 23 de Março, comemoramos 100 anos de Akira Kurosawa. Mesmo quem não o conhece já ouviu vagamente seu nome, ou pelo menos ouviu falar de filmes que nasceram por suas mãos, como Os Sete Samurais, Kagemusha, Sanjuro, Rashomon e Ran.
São Paulo e Rio de Janeiro realizaram nesta semana mostras e homenagens a Kurosawa que ainda podem ser aproveitadas, como a Mostra Kurosawa na Cinemateca (Largo Senador Raul Cardoso, 207) de graça até dia 28. No Rio o Instituto Moreira Salles promove a revisao da obra de Kurosawa e no dia 26 um debate as 19h com participação de Walter Salles, seu fã.
Uma vez quando criança ouvi o comentário de minha mãe referindo-se à Kurosawa como um gênio que parecia fazer de seus filmes uma pintura. De fato Kurosawa desejava ser pintor e começou a trabalhar na empresa de cinema Toho para financiar seu sonho. Graças a ele o Ocidente pôde descobrir o cinema japonês, embora no Japão seja considerado um pouco ocidental demais. Citar um exemplo é fácil; a partir de os Sete Samurais veio Sete Homens e Um Destino e de Rashomon veio As Quatro Confissoes de Martin Ritt.
Por mais que eu não seja extrema conhecedora de seus filmes, tenho o privilégio de ter acompanhado muitos e a audácia de sugerir alguns. Sonhos (1990), por exemplo, marcou minha infância. Eu não poderia compreender as histórias como hoje, mas eu compreendia trechos da cultura japonesa que muitos ocidentais ainda não são capazes de fazê-lo.
Este, na verdade era um post para sugerir Madadayo, de 1993, uma das obras de cunho testamental da fase final de sua carreira. Madadayo mostra de uma forma leve e as vezes cheia de humor a relação professor-aluno, muito acentuada no Japão. É a história real de Hyakken Uchida, professor que após 30 anos lecionando alemão se aposenta e torna-se escritor. Todos os anos seus alunos realizavam o "Ma-ah-da-kai", uma festa em seu aniversário. A escrita ideográfica de Ma-ah-da-kai foi retirada da brincadeira de esconde-esconde.

"No Japão as crianças se escondem e o que se põe a procurar pergunta cantarolando “ma-ah-da-kai” ou “mou i-i-kai (agora já posso?) ao que os demais respondem também melodiosamente “madadayo” (ainda não) ou, se já estão escondidos, “mou i-i-yo” (agora já pode). Todos os anos no Ma-ah-da-kai os discípulos lhe preparam um grande copo de cerveja que o mestre bebe com prazer, ao final lhes cantando, como as crianças, “madadayo”, o que quer dizer naquele contexto, estou bem de saúde e a morte ainda está longe, não pode vir me buscar". (KANEOYA, Iochihiko)



Ainda que na época eu só tenha captado alguns lances do filme, como a bomba na casa, a tristeza pelo sumiço do gato e o lago em forma de donut para que as carpas do jardim nadassem infinitamente, me foi explicado o valor de tudo que é ligado ao conhecimento no Japão; o respeito àquele que ensina e que hierarquicamente está acima de seus ex-alunos seja qual for seu papel na sociedade. Não somente este, mas vários outros aspectos da cultura japonesa são expostos de uma forma muito singela... muito bela num filme que parece extremamente simples.
Eu nunca havia percebido, mas Madadayo realmente marcou a despedida de Kurosawa... foi como libertar o seu espiríto feito criança numa ultima pintura que nos faria ver que a vida só tem sentido se a vivermos completa de sentimentos e sempre com respeito.

E não... eu não cansei de viver ainda.

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