sábado, 26 de abril de 2008

Dossiê Buriteri

Capa EGG Magazine
Buriteri. Gostou?
Esta aí em cima é Buriteri, na capa da Egg Magazine, revista badalada sobre a moda gyaru. Bom... deixa eu começar isso direito. Antes de chegar na moça ai em cima temos um bom caminho pra percorrer.

Ano 2000


No final dos anos 90 e início de 2000 começou a se desenvolver uma forma alternativa de estilo e moda entre as jovens japonesas, mas pra chegarmos lá pensemos na vertente das "kogals" dentro do grupo das gyaru (garotas que se destacavam pelo jeitinho menina e pela moda gritante). Enfim, partindo do conceito das kogals com seus cabelos descoloridos, peles artificialmente bronzeadas e plataformas exageradas, podemos afirmar e reafirmar que a ramificação que nasceu no final dos anos 90 para 2000 é bem pior: as gonguro radicalizaram e criaram um estilo que causou tamanho impacto que nada mais foi a mesma coisa depois dessa virada da moda.

Hashizando o estilo gonguro de ser

Gonguro significa "rosto negro". Este termo era usado para definir os primórdios dessa geração de garotas extremamente morenas e quando digo extremamente, realmente o são. Se as kogals eram bronzeadas as gonguro eram torradas! O prefixo "gon" passou a ser utilizado quando os limites do bom senso foram partidos ao meio e atropelados sem piedade. Uma gonguro normalmente tem cabelos descoloridos e a pele escurecida por bases para pele negra e loções de bronzeamento (que, diga-se de passagem, bombaram nessa época no Japão). Nos lábios e em volta dos olhos era utilizado creme para pele branca além de lentes de contato azuis e botas gigantescas que completavam as cores berrantes das roupas e acessórios.

Ah... corrijam-me se estiver errada, mas ganguro e gonguro não são exatamente a mesma coisa. As ganguro foram uma consequência do boom das gonguro e estão no patamar um pouco mais normal. Não usam maquiagem tão pesada e seus cabelos são mais discretos, descoloridos, porém sem as loucuras psicodélicas das gonguro.
Bom, a partir disso já podemos localizar a nossa personagem principal do post: Buriteri.

Hashizando Buriteri

O nascimento do ramo das gonguro só pôde acontecer graças a uma moça (extremista da moda), conhecida por Buriteri. Este não é seu nome verdadeiro, o termo buriteri vem da junção de "buri" (peixe de rabo amarelo que não sei exatamente o nome) e "teri" de teriyaki que é um molho típico japonês, aliás, eu nunca descobri seu nome real e muito menos imagens dela sem os quilos de maquiagem black power já que ela nunca se apresentou sem sua carapaça desde que criou este estilo, que, diga-se de passagem, foi amplamente disseminado quando a moça foi descoberta pela revista EGG. Buriteri não só foi capa como quebrou barreiras e conceitos fashion de maneira revolucionária. Não pensem que Buriteri andava sozinha. Ela tinha mais duas amigas que desde o início acompanharam seu estilo e usavam isso como uma forma de deixar para trás inibições e personalidades reprimidas do dia a dia. Sim, Buriteri, por exemplo, não se mostrava sem maquiagem pois dizia ser muito tímida para expor seu verdadeiro rosto (ok, sei que muitos pensaram que não mostrava o rosto por ser naturalmente baranga, mas pior com maquiagem, não?). Era como vestir uma personagem depois de horas e horas passando bases para escurecer a pele e criando círculos brancos nos olhos e lábios (panda invertido?) para chamar a atenção pelas ruas de Shibuya, onde esse estilo virou febre na época.

O vírus gonguro

Com a onda dos rostos negros, as vendas de bases especiais para peles negras e tratamentos de bronzeamento artificial bombaram não apenas em Shibuya. A venda de roupas escalafobéticas e acessório exagerados e dourados também estouraram. Todas queriam se destacar e essa onda acabou se tornando tema de estudo. O sociólogo Tadahiro Kuraishi realizou uma pesquisa em Shibuya para analisar a fase de ascensão e queda desse estilo.
As gonguro se uniam mais e mais, mas isso não quer dizer que tenha sido realmente bom.

A queda...

As gonguro foram capazes de chamar tanto a atenção que as outras pessoas passaram a encará-las com espanto e repugnância e passaram a chamá-las de "Yamanba" remetendo-as ao antigo conto popular de um bruxa nojenta que vivia nas montanhas. Gonguro San Kyodai (as três irmãs de rosto negro, no caso, Buriteri e suas amigas) apesar de famosas, passaram a atrair atenção negativa demais e foram rotuladas de garotas sujas, porcas e doentes. Nenhum homem ousava se aproximar delas e isso também acarretou o encerramento das atividades da EGG, em 2000. Os salões de bronzeamento também sofreram baixas e após ataques sucessivos de hostilidade por todos os lados as San Kyodai abandonaram o movimento.

E Buriteri?

Mais tarde, depois da tormenta, jornais e revistas procuraram Buriteri e a encontraram completamente diferente do que a fez famosa... trabalhando em uma loja de roupas, Buriteri estava com a pele branca neve e disse que decidiu abandonar o visual pelo modo com que as pessoas olhavam para ela: "poderia estar sentada em algum lugar que algum adulto se aproximaria, apontaria o dedo e gritaria coisas como: 'sua barata' ou 'repugnante' ". Ela e as amigas decidiram se tornar adultas que não se importassem com o que os outros sentissem ou se parecessem o que as ajudou a se tornarem mais fortes.

Resquícios de Buriteri

Mesmo com o sumiço de sua criadora e amigas, o estilo criado por Buriteri não desapareceu completamente, pelo contrário... vieram as Manbas, por exemplo, que eram mais coloridas e digamos que... selvagens. Preferiam sandálias ao invés das botas e eram (e ainda são) obcecadas por Para Para, a dança que mostramos aqui no blog. Essas coisas loucas aí do lado são ela, rotuladas de Manbas também por causa da bruxa repugnante.
E bom...restou para as empresas de bronzeamento apelar para campanhas mostrando as vantagens da técnica, mas acho que poucas clientes realmente acreditaram nisso já que a onda de salões de bronzeamento fechando foi bem grande.
É isso aí... a lembrança que teremos de Buriteri, no entanto, vai ser a de uma garota que quebrou barreiras e inovou. Ela será lembrada. Com certeza será, seja como repugnante, seja como revolucionária.

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